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12 de Abril de 2018,17h22
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Fernando Von Zuben tem um longo histórico de trabalho com sustentabilidade. Desde a graduação estuda o assunto, mas foi quando trabalhou na Tetra Pak (onde foi diretor de Meio Ambiente durante 21 anos) que se viu envolvido definitivamente com o tema. Lá ajudou no desenvolvimento do site “Rota da Reciclagem”, que utiliza a plataforma Google Maps para indicar os pontos de coleta mais próximos. Também foi secretário do Verde e do Meio Ambiente na Prefeitura de São Paulo.
À frente do Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem) ajudou com sugestões que hoje constam da Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída em 2010. Uma das contribuições foi sobre a participação das cooperativas no processo. A outra, sobre a chamada responsabilidade compartilhada.
Além disso, o especialista acredita que o investimento que as empresas empregam em sustentabilidade demonstra que o assunto não é só “propaganda” nas companhias e mostra aos clientes e consumidores a tentativa de diminuir a pegada (emissão) de carbono e o impacto da sua atividade.
Confira a entrevista na íntegra, a seguir:
O senhor foi diretor de Meio Ambiente da Tetra Pak durante 21 anos. Como surgiu o interesse pelo tema da sustentabilidade e da preservação ao meio ambiente?
Desde a universidade. Na época, nem se falava em sustentabilidade, era mais a questão de meio ambiente e tratamento de efluentes (resíduos provenientes das indústrias). Trabalhei como bolsista dentro da própria universidade até me formar, com tratamento biológico de efluentes. E depois, quando me formei, fiz mestrado na área ambiental. Sempre que trabalhava nas empresas, ninguém se interessava muito pela questão ambiental; toda essa parte técnica era deixada comigo. Com isso, fui aprendendo e me aperfeiçoando, até que a Tetra Pak me convidou e lá eu trabalhei 100% na área ambiental. Foi onde investi nessa carreira.
O site “Rota da Reciclagem” (realizado em parceria com o Google e que mostra os pontos de coleta mais próximos) já completou dez anos. Como surgiu a ideia?
Na Tetra Pak, trabalhávamos muito com cooperativas, com coleta seletiva, e isso foi crescendo em todo o Brasil. Formamos uma rede de cooperativas que coletavam as embalagens longa vida e todo nosso material. E os consumidores e sucateiros iam à fábrica perguntar onde poderiam levar nossas embalagens.
O Google tinha acabado de lançar a plataforma Google Maps, em 2007. Aí eu dei a ideia para o grupo de engenheiros que trabalhava comigo, de usarmos isso para identificar os pontos de coleta. Convidamos uma startup de Campinas, que trabalhava com tecnologia e ficava próxima à fábrica, para que desenvolvessem algo em cima da plataforma Google Maps.
Em questão de dez minutos, desenvolvemos o sistema. Como eram poucos endereços, porque tínhamos muita gente trabalhando em campo - cerca de 25 funcionários no Brasil todo, basicamente com cooperativas, conectando-as com a fábrica recicladora mais próxima - os colocamos dentro da plataforma. Começamos com cerca de 150 pontos no Brasil, e hoje provavelmente já temos mais de três mil.
O número de contribuições aumentou consideravelmente ao longo dos anos?
Em termos de toneladas, quando começamos, coletávamos em torno de 30 mil. Hoje, coleta-se em torno de 70, 80 mil. Obviamente esse número cresceu não apenas por causa do site, mas ele foi de grande ajuda.
“Quando o Rota da Reciclagem surgiu, coletávamos em torno de 30 mil toneladas de resíduos. Hoje, são 80 mil.”
O senhor ajudou a reescrever a lei que estava parada no Congresso e que se transformou na Política Nacional de Resíduos Sólidos. Quais foram as sugestões apresentadas pelo senhor? Elas foram integradas ao documento?
Na época, eu estava à frente do Cempre – Compromisso Empresarial para Reciclagem -, e uma grande contribuição que nós demos foi a participação das cooperativas no processo. E também obrigar que todo mundo participe da coleta. Não é só o poder público, não é só a empresa, mas o consumidor também é fundamental, é a chamada responsabilidade compartilhada. Estes foram os dois pontos que a gente ajudou a incluir.
E, obviamente, depois, lá no Congresso, trabalhamos com os deputados e, na sequência, com os senadores. O deputado Arnaldo Jardim foi o relator, trabalhou bastante. O ex-prefeito João Dória, na época, ajudou muito. A SOS Mata Atlântica também. E o Cempre. Então, foi realmente um grupo de pessoas e entidades que “moveu a roda”.
E o senhor acha que estes pontos estão sendo 100% contemplados atualmente?
Infelizmente, não. Nem tudo deu certo. Mas houve um avanço muito grande nos últimos cinco anos no Brasil. Você não pode olhar uma cidade, tem que olhar todo o mapeamento. Na minha cidade mesmo (Campinas), há cinco ou sete anos não tinha coleta seletiva. Hoje, toda terça-feira passa o caminhão.
“Infelizmente, nem tudo deu certo na PNRS. Mas houve um avanço muito grande no Brasil nos últimos cinco anos”
Quando foi secretário do Verde e do Meio Ambiente, a secretaria apresentou planos de alavancar a coleta seletiva por meio de parcerias e seguir o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) em até quatro anos. O que já foi feito a esse respeito?
Nós participamos ativamente do Plano de Metas do prefeito João Dória. A meta da secretaria era de ter no mínimo 200 mil árvores plantadas e, junto com a AMLURB e as secretarias das prefeituras regionais, a gente trabalhou muito para o Programa de Metas da Prefeitura. Algumas metas eram:
E estávamos fazendo uma grande parceria com a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo para quantificar realmente o quanto se coleta na cidade de São Paulo. Porque os meus dados próprios, da Tetra Pak, são muito superiores – praticamente dez vezes maiores – do que os dados da AMLURB (Autoridade Municipal de Limpeza Urbana) sobre a coleta municipal diária na cidade.
E alguma dessas metas já teve início ou se concretizou?
Eu tinha fechado um projeto grande junto ao CAT (Centros de Apoio ao Trabalhador) para que se treinasse e fizesse toda a documentação de 50 cooperativas novas na cidade de São Paulo. Com uma rotina de documentação adequada, a AMLURB pode mandar o material para elas. Então, nós nos reunimos um dia com a Fundação Banco do Brasil e a ANCAT – Associação Nacional dos Carroceiros e Catadores de Materiais, para que iniciassem esse processo em dezembro do ano passado, no sentido de legalizar 50 cooperativas.
Nós levamos também a Coalizão de Embalagens para a AMLURB. A Coalizão já tinha um programa pronto de comunicação para a população, e doaria isso para a AMLURB. Eu acho que esse projeto também não foi para a frente (a Coalizão é uma iniciativa inédita no país em que 22 entidades, que reúnem milhares de empresas, se comprometeram a ter um plano de gestão de resíduos sólidos dentro do contexto da logística reversa.)
Como a Enviropartners (empresa de consultoria ambiental) surgiu? Foi da sua expertise e da vontade de ajudar as empresas a serem mais sustentáveis?
Ela surgiu em março de 2016, logo após minha saída da Tetra Pak. Basicamente, a ideia é levar um pouco de conhecimento disso tudo para empresas que estão iniciando o processo de se tornar mais sustentáveis.
De qual forma a Enviropartners contribui com empresas que queiram implantar um programa de logística reversa?
Muitas vezes, o próprio programa de sustentabilidade da empresa inclui a logística reversa. Basicamente nos procuram para a implementação de uma cultura mais sustentável mesmo.
Em 2009, o senhor participou do desenvolvimento do polímero verde, proveniente da cana-de-açúcar. O investimento para que as empresas adotem o material em seus produtos é alto?
Depende. No caso da Tetra Pak, a gente pagava 20% a mais do que o plástico feito de petróleo. Mas é um investimento interessante, porque demonstra para o consumidor e cliente que realmente não é só propaganda, que você está investindo para diminuir a pegada de carbono e o impacto da sua atividade – neste caso, a questão do aquecimento global e de fontes renováveis, porque a cana-de-açúcar é uma fonte renovável.
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